sábado, 17 de agosto de 2013

Reflexos

A perda muitas vezes nos faz sentir que o inferno desabou sobre nós...


           Com tantas pessoas no mundo, por que aquele enxame de desgraças escolheu logo minha família e meus amigos? Por que não me levou no lugar deles? Só posso estar pagando pelos meus pecados - ou o inferno chegou à humanidade.
           Dez dias após os acidentes e o falecimento de tantas pessoas que amava, ali estava eu; sentada sobre uma rocha, sob o brilho do luar. Lua ensanguentada, que ajudou na destruição da minha vida e aumentou minha culpa, meu sofrimento, meus pesadelos... Tudo de que eu precisava era de uma mudança, um início que me fizesse esquecer tudo e que diminuísse o fluxo das minhas lágrimas.
           Disposta a recomeçar, peguei minha bicicleta, coloquei uma roupa diferente daquela que eu havia usado naquela "uma semana e três dias", e dei o primeiro passo importantíssimo da minha trajetória - a viagem para um lugar novo, um ambiente que me pudesse proporcionar novas ideias, novas inspirações, novas lembranças...
           Pedalei sem parar durante uma hora e quinze minutos. Sempre no sentido oeste, resolvi descansar um pouco à beira de um rio de águas cristalinas e puras. A única coisa ruim é que era noite, por isso não dava para apreciar melhor sua beleza. Apesar disso, a luz da lua na água refletia, fazendo com que maior ficasse seu esplendor.
           Eu tive inveja... Ver algo tão puro e inocente... Gostaria de ser assim também, mas minhas mãos denunciavam-me. A busca pela remissão era dificílima, praticamente impossível. Percebi que meu maior erro foi ter nascido.
           Acabei adormecendo ali mesmo, e só acordei às quatro horas da manhã. Não esperei muito; logo procurei algo para comer nas árvores que havia lá perto. Consegui apenas uma manga meio verde - comê-la era minha única opção.
           Não perdi tempo; subi em minha bicicleta e prossegui rumo ao meu novo destino, já começando a próxima fase do meu futuro, que possivelmente secará as gotas de sangue que sujam meu coração já quase apodrecido.
           Passei duas horas pedalando, fiz algumas pausas somente. Pouco à frente de onde estava, avistei um pequeno bosque. Parecia mais a entrada de uma floresta. Na realidade, eu estava pedalando sobre o chão de uma estrada praticamente deserta, e o tal bosque provavelmente teria a saída para uma fazenda ou algo assim, se prosseguisse certos quilômetros adiante.
           Parei um pouco e pensei: já estava cansada, havia apreciado belas vistas, as quais ajudaram um pouco na limpeza da minha alma. De fato nada tinha a perder. Segurei mais firmemente no guidom e recomecei as pedaladas, agora seguindo rumo à "floresta".
           Apesar de o caminho até lá ser de apenas alguns 500 metros, parecia-me mais ser de 500 quilômetros. Mesmo tentando desviar o foco das memórias, ele sempre se direcionava à elas: momentos de loucura, nos quais a doença corria meu atos e destruía minha carne - as mãos tinham cheiro de sangue. As lágrimas continuavam a escorrer.
           Comecei a adentrar à mata. Não mais sentada na bicicleta, pois o caminho dificultava fazer isso. Agora eu estava em pé, segurando meu meio de transporte como se fosse uma cruz bem pesada. Minha culpa aumentava seu peso.
           Fui andando cada vez mais, até que, em determinado ponto, deparei-me com uma porta feita de espelhos. Era grande e refletia tudo de um modo consideravelmente melhor. Galhos que estavam quebrados ou secos, lá dentro esbanjavam beleza. Com certeza era uma porta atraente, e me convidava para por ela passar.
           Encostei meus dedos em sua maçaneta e pus-me a girá-la. Realmente... Eu nada tinha a perder com isso. Fechei meus olhos e a atravessei, sem qualquer medo que fosse.
           Naquele instante, tudo parecia melhorar. Senti o perfume de minha mãe passando por mim. Abri os olhos e logo me surpreendi com o que estava à frente: cenas de minha vida em todo o seu decorrer, do início à doença, que foi o fim da liberdade de minha alma.
           A princípio, vi momentos de grande alegria; eu e meus grandes amigos em um acampamento, meu pai e eu correndo pelo parque, todos sorrindo... Era simplesmente inenarrável o prazer da minha felicidade. Consegui, inclusive, sorrir, mas logo comecei a chorar. Era triste saber que eu havia destruído com minhas próprias mãos aqueles que de fato faziam com que minha felicidade existisse. Naquele dia... Naquela festa...
           Viajei por toda a minha linha do tempo, e isso foi realmente inesquecível. Quando me dei conta, estava de joelhos no chão, em prantos. Mãos tapando os olhos, comecei a me sentir tonta. Círculos psicodélicos giravam cada vez mais em cores preto e branco. Desmaiei.
           De repente, senti-me despertar. Estava deitada sobre minha cama, e ouvi bater à porta do quarto.
           -Lorena?! Está pronta? Precisamos ir logo ao supermercado para comprar as coisas da festa!
           Era a voz do meu irmão. Naquele instante, meus olhos se encheram de lágrimas. O que acontecera afinal? Como ele poderia estar vivo? Levantei-me imediatamente e corri para abraçá-lo. Foi o abraço mais feliz da minha vida.
           E de repente eu estava lá; de volta ao mundo real, dois dias antes da doença. Talvez pudesse recomeçar, e impedir que tudo ocorresse novamente...

                 ...Mas infelizmente um destino não pode ser alterado...
           

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